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Quando alguém que amamos morre por suicídio

Informação e acolhimento para familiares e amigos enlutados, com base em anos de pesquisa com famílias e de escuta clínica.

O que você pode estar sentindo

Reações comuns depois de uma perda por suicídio

Cada pessoa vive o luto de um jeito. Algumas das reações abaixo podem aparecer juntas, se alternar ou surgir meses depois.

Choque e descrença

A sensação de que não é real, de estar anestesiado(a) ou de viver no automático nos primeiros dias e semanas.

Perguntas sem resposta

O porquê que volta muitas vezes. Nem sempre haverá uma resposta completa, e isso também faz parte do luto.

Culpa e o “e se”

Revisitar conversas e sinais, imaginando o que poderia ter sido diferente. É uma das reações mais frequentes.

Raiva

Da situação, de outras pessoas e, às vezes, da própria pessoa que morreu. A raiva pode conviver com o amor e a saudade.

Vergonha e silêncio

O estigma em torno do suicídio faz muitas famílias evitarem o assunto, o que pode aumentar o isolamento.

Lembranças difíceis

Imagens e lembranças que voltam sem aviso, sobressaltos ou a vontade de evitar lugares e situações.

Nenhuma dessas reações está errada. Elas costumam variar de intensidade e podem conviver com momentos de alívio, saudade e lembranças boas.

Por que esse luto é diferente

Uma perda com camadas a mais

A morte por suicídio costuma acontecer sem aviso, deixando pouco espaço para despedidas e muito espaço para perguntas. O estigma que ainda existe em torno do tema leva muitas famílias a silenciar justamente quando mais precisariam falar.

Em um estudo com 41 familiares e pessoas próximas, do qual participei na UFRGS, investigamos as experiências ligadas ao trauma nesse tipo de perda. Esse e outros trabalhos com famílias enlutadas fazem parte da minha formação como pesquisadora e informam o modo como acompanho quem chega ao consultório.

O cuidado com quem fica tem nome: posvenção

Posvenção é o conjunto de cuidados oferecidos a quem perdeu alguém por suicídio. A Organização Mundial da Saúde reconhece o apoio aos enlutados como parte das estratégias de prevenção do suicídio, porque quem fica também merece atenção à própria saúde mental.

Caminhos possíveis

O que costuma ajudar

  • Falar sobre a pessoa e sobre o que aconteceu, no seu tempo, com quem escuta sem julgar.
  • Aceitar que talvez não haja todas as respostas. O suicídio raramente tem uma única causa.
  • Cuidar do básico: sono, alimentação e uma rotina possível, mesmo que mínima.
  • Adiar grandes decisões nos primeiros meses, quando for possível.
  • Buscar pessoas de confiança e, se fizer sentido, grupos de apoio a enlutados.
  • Procurar ajuda profissional quando a dor impede de seguir com a vida, quando a culpa ocupa quase todo o pensamento ou quando lembranças difíceis se repetem sem controle.

Crianças e adolescentes na família

Crianças e adolescentes também vivem o luto, às vezes de formas menos visíveis. Costuma ajudar dizer a verdade com palavras adequadas à idade, evitar segredos, que em geral são percebidos, e permitir que participem das despedidas se quiserem. Mudanças no sono, no comportamento ou na escola merecem atenção.

Posso orientar os adultos da família sobre como conversar com as crianças e acompanhar adolescentes enlutados.

Para quem quer apoiar alguém enlutado

  • Estar presente vale mais do que encontrar a frase certa.
  • Diga o nome da pessoa que morreu. Muitas famílias sentem falta de ouvir esse nome.
  • Evite explicações, julgamentos e comparações.
  • Ofereça ajudas concretas, como uma refeição, uma carona ou companhia.
  • Lembre-se das datas difíceis, como aniversários e o dia da perda.

Ajuda imediata

Você não precisa passar por isso sozinho(a)

Se você está em sofrimento intenso ou pensa em tirar a própria vida, procure ajuda agora.

Você também pode procurar a UPA ou o pronto atendimento mais próximo, ou o CAPS da sua região. O WhatsApp do consultório não é monitorado 24 horas e não é um serviço de emergência.

Pesquisa

Estudos com famílias enlutadas

Alguns dos trabalhos de que participei sobre luto e suicídio.

  • 2026

    Exploring the experiences and impact of discovering the body at the site of suicide: a qualitative investigation

    Death Studies
    Ver o artigo
  • 2021

    A qualitative study on traumatic experiences of suicide survivors

    OMEGA, Journal of Death and Dying
    Ver o artigo
  • 2021

    Experiências com a doação de tecido cerebral humano para pesquisa e o impacto do luto nas famílias após o suicídio

    Tese de doutorado, UFRGS
    Ler no LUME
  • 2019

    Case report on the multiple pathways to posttraumatic stress disorder following suicide

    Death Studies
    Ver o artigo

Acompanhamento para enlutados

Atendimento individual a familiares e pessoas próximas, presencial na Rua Padre Chagas, 147, em Porto Alegre, ou online.